As doenças cardiovasculares são as principais causas de morte em todo o mundo, inclusive no Brasil. De acordo com pesquisas recentes, essas doenças são responsáveis por cerca de 20% das mortes na população brasileira com mais de 30 anos de idade. Nas regiões Sul e Sudeste do País, o percentual é ainda maior do que nas outras regiões.

Embora possa ser multifatorial, sabe-se que o estresse oxidativo é um dos fatores importantes para o desenvolvimento e a progressão das doenças cardiovasculares. Em razão disso, atualmente, tem crescido o número de estudos acerca de estratégias nutricionais com compostos antioxidantes que poderiam melhorar a saúde cardiovascular. Entre eles, o resveratrol (3,5,4′-tri-hidróxi-trans-estilbeno) tem ganhado notoriedade na área científica.

O resveratrol é um composto polifenólico sintetizado por diversos vegetais como amora, amendoim e, principalmente, uvas (Vitis vinífera e Vitis labrusca) e seus subprodutos. Nas uvas, este polifenol é sintetizado na casca como resposta ao estresse causado por ataque fúngico (Botrytis cinérea, Plasmopora vitcula), dano mecânico ou por irradiação de luz ultravioleta.

Com relação ao efeito cardioprotetor, estudos demonstram que o resveratrol atua inibindo a ação da proteína-C reativa, um marcador de inflamação não específico de risco cardiovascular, que é capaz de induzir disfunção endotelial vascular e promover aterosclerose quando em nível aumentado. Além disso, este polifenol induz o relaxamento de artérias mesentéricas, cuja indução pode ser dependente ou independente do endotélio. Esta propriedade relaxante do resveratrol pode favorecer a redução da pressão arterial, e, ao reduzir o esforço do músculo cardíaco, também pode contribuir para os efeitos benéficos em outras desordens, como hipertensão e diabetes tipo 2, em que a função endotelial é reduzida. Ademais, o resveratrol inibe o fator nuclear kappa B e modula a concentração plasmática de marcadores inflamatórios e autoimunes comumente encontrados em indivíduos com risco aumentado para doenças cardiovasculares.

Além destes efeitos cardioprotetores, pesquisas recentes têm demonstrado outras aplicabilidades benéficas do resveratrol sobre a saúde. Foi descoberto que o resveratrol possui propriedades anticarcinogênicas (inibição da proteína quinase C) e anti-inflamatórias (inibição da transcrição e atividade da ciclo-oxigenase), efeitos antimicrobianos e antivirais, capacidade de reverter a dislipidemia, além de atenuar a hiperglicemia e hiperinsulinemia e proteger a função endotelial. O resveratrol também pode atuar de modo similar ao estrogênio e substituir parcialmente este estrogênio nos tratamentos pós-menopausa.

REFERÊNCIAS

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